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O dia em que a terra parou

Em 1951, ou seja, em plena “Guerra Fria” entre os Estados Unidos e a União Soviética, o diretor Robert Wise lança seu filme de ficção científica “The Day the Earth Stood Still”.

O filme conta a história do alienígena Klaatu e seu robô Gort, que aterrisa sua nave espacial em Washington, DC, com o objetivo de dar um ultimato aos líderes da Terra para que acabem com as guerras e a corrida armamentista.

Ao desembarcar, Klaatu é atingido pelo tiro de um soldado que o julgava inimigo.

Mesmo ferido, o alienígena decide conhecer mais sobre a cultura local e descobre que nem todos os humanos querem a guerra.

E para demonstrar seu poder, ele decide dar à humanidade uma demonstração de força, fazendo com que todos os aparelhos elétricos da Terra parem de funcionar ao mesmo tempo.

Poucas semanas atrás, como no filme, o Brasil parou.

E não foi preciso nenhum homem do espaço descer em Brasília.

Uma das categorias que virtualmente carregam o país nas costas simplesmente decidiram cruzar os braços.

Os caminhoneiros estacionaram seus caminhões nas estradas e em uma semana os postos de combustíveis não tinham mais etanol, gasolina ou diesel, os supermercados ficaram com suas prateleiras vazias, as escolas pararam, as indústrias pararam e parte da nossa produção agropecuária foi perdida.

E por que os caminhoneiros fizeram a greve?

Em primeiro lugar, porque eles podiam fazer: os caminhoneiros respondem por 60% de toda carga transportada no continental território brasileiro.

E quanto quase todos os caminhões param ao mesmo tempo, o país inteiro para.
Além de trabalhar de forma precarizada, enfrentaram nos últimos 11 meses reajuste de 56% do diesel nas bombas, em aumentos registrados até cinco vezes por semana.

E mesmo sendo prejudicada pela falta de combustível, falta de produtos nas supermercados e outros problemas que a greve trouxe, a grande maioria da população ficou ao lado dos caminhoneiros.

E como ficar contra uma categoria de trabalhadores que passa quase 12 horas por dia dirigindo um caminhão?

Fica semanas distante da família?

Os caminhoneiros dirigem, em media, cerca de 10.000 km por mês, num país que vive um apagão crônico de infraestrutura.

Dos 1.735.621 km de rodovias, 1.365.426 km não são asfaltadas.1

E boa parte das estradas pavimentadas, não poderiam levar este nome, tamanhas são as crateras e buracos que os motoristas têm que desviar.

Para efeito de comparação, o Uruguai – 48 vezes menor em extensão territorial do que o nosso país – dispõe de 43,9% da malha rodoviária pavimentada (valores em km/1.000 km2) contra apenas 24,8 % do Brasil.1

Se o quadro das estradas brasileiras é assustador, a violência assombra ainda mais.

Nos últimos quatro anos, o roubo de carga teve alta de 42% e o Brasil já é considerado o sexto país mais perigoso do mundo para os caminhoneiros. 2

Agora, nos resta torcer para que o governo aumente os investimentos em infraestrutura, asfaltando mais estradas, principalmente nas regiões onde elas são mais necessárias.

Que consiga reduzir a violência, nas estradas e nas cidades.

E que cumpra todos os compromissos assumidos com os caminhoneiros para que não tenhamos que ver um “remake”do filme O Dia Em que a Terra Parou, que aliás, foi feito em 2009, com o ator Keanu Reeves interpretando o alienígena.

Fonte: Elaborado pelo CNT com base em dados do SNV (2015), para o Brasil e da Central intelligence Agency (CIA) para os demais países.

2 Fonte: Associação Nacional do Transporte de Cargas & Logística (NTC)